“O mundo literário é muito violento.”

septiembre 3, 2014 PortuguêsReportajes / Reportagens  No comments

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A semana do dia do escritor, 25 de julho, foi uma semana de duras perdas. E uma pergunta: A que ponto não valorizamos mais a obra após a morte? A atenção do mundo literário se dividiu em três grandes dores. A primeira se deu no Rio de Janeiro em um adeus a um baiano que teve dois de seus romances incluídos nos cem melhores romances brasileiros do século. Membro da Academia brasileira de letras, detentor de um prêmio Jabuti por “Viva o povo brasileiro” em 1984 e um prêmio Camões em 2008. João Ubaldo (Não) viu seu nome alçado à tamanha glória, como agora. Onde em uma livraria da Travessa, montada em uma FLIP alborotada, suas obras decoravam as principais esquinas, tal fosse autor que seria atração nas horas seguintes. Vale o escritor morto, mais palavras que um escritor que ainda pulsa? Só se fala em legado após a passagem? Porque não cultuamos os grandes nomes, os grandes deuses da palavra quando estes ainda transitam entre nós? Quando as palavras ainda têm sangue nas letras? Colunista do jornal alemão  Rankfurter Rundschau, e colaborador em inúmeras publicações estrangeiras como a The Times Literary Supplement britânica, teve seu nome misturado a Borges e Garcia Marquez para uma série de nove filmes patrocinados pela TV estatal canadense em uma imersão sobre a literatura latino-americana.

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Suassuna também nos deixou. Mas honrou o Brasil e levantou a cara e a cultura de um povo, desde muito jovem com “A Mulher vestida de sol”, 1947, traçando as particularidades do Brasil     nordestino. Em 1955, estreou o texto mais popular dentro do moderno teatro brasileiro, segundo o crítico Sabato Magaldi, inaugurando o “Auto Da Compadecida”. Alguma semelhança   com Ubaldo? Ambos intraduzíveis. O baiano se auto-traduziu em “O sargento Getúlio”, posto que o texto era imensamente recheado com particularidades do solo nordestino. Algo mais? Claro! Imensamente humanos desprovidos desse sentimento de inferioridade- tão clichê– por escreverem em português-verde e amarelo. Suassuna também fundou em Recife, o movimento do teatro popular do nordeste em 1959. No entanto, o paraibano só ocupou a cadeira número 32 da Academia brasileira de letras em 1990. É o tempo que consagra um escritor? É a morte que os leva aos campos Elíseos das letras? 

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Rubem Alves certamente decifraria este dilema com naturalidade. Nossa terceira grande perda literária foi um expoente na pedagogia, filosofia, teologia, psicanálise, mestre em intelecto, prosa e poesia, mas, sobretudo, grande conhecedor dos melindres do emocional humano. Sua partida repercutiu no tradicional jornal El País, como a despedida de um dos autores mais lidos no Brasil. O mineiro nascido em Boa Esperança tinha por lema que ensinar e educar não implicava em um ato objetivo, mas na habilidade de “ensinar a ver”. Com “A theology of human hope” defendeu sua tese de doutorado em Princeton, que mais tarde viraria livro. E um dos ramos de sua Teologia da Libertação. Deixou-nos com mais “Ciência e a sapiência”, além da verdade inabalável de que “Ostra feliz não faz pérola”. O legado dos três já era demasiado consistente. Porque segundo Rubem O tempo foge, passa, tudo é espuma…Tempus Fugit.”…mas ao longe, a voz de Ubaldo ecoaria “O mundo literário é muito violento.”

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