O duende e a menina

junio 29, 2016 CrônicasPortuguês  No comments

paco maestro

Sobre a «Teoria y Juego Del duende» de Garcia Lorca…

Por vezes, o ator, trovador, escritor, esbanja técnica, habilidade, controle, efeitos plásticos, mas não lhe tira da realidade. Não te sacode, não pulsa dentro. Não enfeitiça, não  inebria. Se não fala à alma, falta algo. Se não te faz esquecer por um microssegundo que és feito de carne. Falta vida. Falta o duende. Falta. Essa chispa, que acende e ascende, que comove, que te faz levitar por entre as entrelinhas da vida corrente. O duende chega sem aviso, te penetra ou te possui. O duende é assalto ou furto? Ou ambos os duelos dilacerando a razão que não se segue. O duende é arroubo, é possessão, não se explica ou delimita. Se não há risco, não há duende, se não há fluxo, ele não vem. Se não és ducto, a se deixar conduzir, se não és vórtice a preencher-se, se não comunga, não é duende. Se não dança no abismo, da entrega plena a balançar os sentidos da lógica e dos métodos…

O duende te escolhe, ou nasce dentro, juntamente com o embrião fecundado? Grande questão a levar-nos a passear pelo bosque das almas que nasceram para serem batizadas nos rios da arte, pura e crua. Viva e saltitante. Essa menina linda e alegre, que nos leva pela mão a dançar nas estrelas e sentar na  arquibancada das nuvens para ver o mundo passar, passar e girar.

O duende vive e morre, mas se eterniza em uns poucos, que plasmam seus passos, por onde ele passou e despertou a emoção ou a fagulha inexplicável.

O poder que todos sentem e nenhum filósofo explica, segundo Goethe.

Se dá em um preciso momento em alguns, talvez no ápice de uma carreira artística. No entanto em alguns poucos, ele provem do embrião, desabrocha e renasce a cada estação com mais viço mais vento de levante e levantando cada vez mais saias, pálpebras, vielas que nos lançam mais além deste opaca dimensão.

Vida longa aqueles que acolhem o duende até o ultimo dia da existência física.

 

 

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