FLIP: O único pop atemporal.

septiembre 3, 2014 PortuguêsReportajes / Reportagens  No comments

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As ruas de Paraty recordavam o que em algum universo paralelo seria uma micareta intelectual. Jovens com garrafas de vinho em punho, casais e famílias desfrutando o frio de uma noite de sábado literário. Senhoras e mais senhoras sentadas na praça principal, com os óculos ajustados, miravam o telão que democratizava a feira.

Millôr Fernandes era o padroeiro da festa de 2014. O dramaturgo, escritor, desenhista e tradutor abençoava os presentes. Até mesmo a capela de Nosso Senhor dos Passos parecia mais iluminada para batizar novos escritores. Velas eram acesas ao preço módico de cada intenção. No sábado, 2 de agosto, a noite cai com Jhumpa Lari, inglesa filha de imigrantes indianos. Ela traz à mesa a discussão sobre o poder de mediação cultural da literatura. E levanta uma bandeira que coincidiria com a mente do peruano Daniel Alarcón na manhã seguinte: escritores que criam em mais de um idioma ganham um distanciamento sobre determinada realidade. Usam cada idioma para um propósito. Solidificam a ideia de que cada idioma traz um sabor. E isso sim importa. Alarcón só narra o Perú em inglês e Jhumpa destaca os escritores que abraçam novas línguas por não se identificarem com a cultura de origem. Seres adotados pelas letras de continentes alheios. Sim, somos normais.

Último dia. Ao meio dia ninguém almoça. Com cacofonia porque a literatura é pop. Fernanda Torres entra em debate e quase embate com Daniel Alarcón. Rouba a cena como boa atriz que é. Entra no personagem. Difusamente. E ruboriza o oponente durante a exposição do tema “Romance em dois atos”. Redime-se quando honra o homenageado Millôr, tradutor irrepetível de Shakespeare ao português. E quase recebe a redenção ao citar Suassuna e o estado de vigília, quando os poemas começavam a pulular a mente do paraibano antes de dormir. Daniel Alarcón conseguiu dar o recado com o pouco tempo que lhe coube; delineando objetivamente a montanha-russa ou vida de um jovem escritor.

flip1Era quase fim de festa e o ar tinha um toque nostálgico-embolorado na tarde de domingo. Quando um senhor de 83 anos relembrava as andanças com Neruda ou Rubem Braga, era Jorge Edwards destilando trechos de “El origen Del mundo”, com sua personagem mexicana de etnia japonesa, uma quase filósofa que citava Platão antes de fazer amor. Puro sonho e êxtase.

Ilusão e gozo se mesclam ao ver pessoas carregando sacolas com dez volumes recheados de folhas em celulose prensada.

O tradicional encerramento da feira colore o entardecer com o habitual encontro “Livros de cabeceira”, onde cada autor lê trechos de suas obras prediletas. A voz do mexicano Juan Villoro encorpa o tempo citando “os sons provenientes das ruas da cidade transparente” em um fragmento plácido de “Lolita”, porque ao que parece Vladimir Nabokov em 1955, se teletransportara a Paraty. E já sabia que esse é o único pop atemporal.

 

 

 

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