Do manancial dos deuses. Esquecidos.

mayo 21, 2018 Poesia  No comments

E que me olhe com olhos de encanto. Com o toque entre a relva e o vento. Que me veja como filha de Hécate. Ninfa. Sacerdotisa ou feiticeira. Sem partituras rasas ou mãos de poucas palavras. Que me leia mais além do terceiro parágrafo da última vértebra. Mais além dos verbos, versos, gestos ou trejeitos de uma curva. Lombar. E que sinta o aroma da noite. O cheiro da brisa. Solta. Entre os cabelos. Que invoque Pan. Que invoque os elementos e arda entre matizes de carmim. Tríade. Triqueta. Pêndulo de membros entre resmas de células e celulose molhada. E que me olhe. Novamente. Com certo espanto. Talvez. Como leito, como página, onde se lê e se escreve. Como massa de pão a fermentar. Sob o calor das mãos. Que seja rio ou correnteza. Mas que flua, mesmo com o repousar dos corpos. E que me veja com os olhos fechados. Nas noites não compartidas. Nos dias claros e nas manhãs inexatas. Que seja mestre e discípulo. Artesão de peles e espasmos. Ator para mais de três atos. Vértice e vórtice do manancial dos deuses. Esquecidos. E que seja turvo, seja denso, demorado. E que me olhe. Como morada mais além de uma janela. De uma dimensão catapultada. De uma realidade paralela.

 

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