Bela-mente incongruente

junio 9, 2016 CrônicasPortuguês  No comments

narciso

Defina o que não se toca, ou se tinge e não se molha, desfolhando a forma… 

Porque a beleza, na verdade, precisa ter algo de feio. Sim. A beleza para a leitura destes olhos precisa provocar certo espanto, certa graça, incoerência e incongruência. Sem o menor denominador comum ou senso geral da nação maciça. A beleza de um sorriso torto, ou um dente lascado. Talvez um par de olhos de coruja ou gavião endiabrado. Encantam-me os olhos, a beleza da segunda página, o flerte à segunda vista. Aquela pista de beira de estrada, quando você foge de todos os rostos previsíveis. A beleza está presente, naquela esquina que se espreme, decorando uma célebre avenida movimentada. Ou quando o rosto ganha calles ou vielas de expressão. Rostos de homens são intrigantes. Precisam de um artefato de mistério, daqueles que sempre podem levar um às sob a manga. E evoquem a ideia que sempre haverá algo mais a descobrir. Faces de fêmeas carecem de um exotismo, uma diferença e um contraste, entre olhos de abismo e bocas expressivas. Porque sem barba, o que nos resta serão os faros esfumaçados.

Talvez, sempre fuja da beleza. Ou a busque em tudo a todo tempo. Entre as teias disso que chamam  realidade. Ou nas profundezas desses espelhos que calam a superfície da beleza tangível. Prática ou propriamente imperfeita. E sigo achando os raros os mais belos, em todos os gêneros e reticências. Os estranhos com cara de caídos dos galhos, das nuvens ou da nave. Sigo achando os rostos perdidos que se desencontram da multidão os mais belos. Beleza tem tudo aquilo ou aquele que me tire do sério. Afinal, sério quase ninguém é belo. Ou talvez sim. Porque a beleza não cabe na casca. Ela atravessa a polpa, e se deposita na semente. No cerne da questão sem resposta. No vasto e no sabor infinito. A beleza que atrai e invoca o mais belo de ti, é aquela que não se possui, que resvala, mas te permeia, passeia dentro dos pensamentos sem coleira, instigando a alma. E os anseios sem razão estética ou aparente. A beleza está na corrente e no fluxo do enigma insistente que jorra de uma mente turibulando no que cria, no que constrói e no que transforma. A forma aceitável do que é belo ou evidente.

 

 A beleza que me inclina é sempre o convite de outra mente que dance além do céu, e roube outras cores, outros traços, outros elos, além do tempo e dos anos condensados desse trem-bala-terrestre.

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