Acolherei. Te.

febrero 6, 2017 CrônicasPoesiaPortuguês  No comments

acolherei

E te acolherei. Quando estiveres cansado. Quando as horas restarem uníssonas e opacas e todos os rostos, ou quase todos. Forem mais do mesmo. E as histórias cismem em se orquestrar na insistente repetição. Na monotonia que escorre pelas chagas que não se curam, nos ofícios comuns. Quando a realidade se tornar cinza e as ruas do seu bairro se mostrem plenas de caos e tensão apática entre pernas que caminham rumo a esquinas inexistentes. Quando todos os copos forem rasos e seu fluxo – mental – não caiba em nenhum dorso, te acolherei. Quando já não houver paredes a pintar e as tintas precisem ser içadas desde as nuvens mais altas. Quando uma amarelinha figurar no seu chão e os tons restarem saturados de nostalgia ou segredos furtivos. Eu te acolherei. Acolher-te-ei, como a mesóclise que acolhe o pronome. No meio do caos, no meio de tudo, no meio das pernas e no meio de tudo o que eu tenho e que já nem sei. Porque estes braços são longos e abraçam tudo – e o que eu também não sei. E nas frases que calo e nas que te escrevo, te acolherei. Como quem colhe o vento e na colheita dos tempos que os tontos não veem, mas que os lúcidos sentem, o que só se sente uma vez.  E desde o fundo destas  entranhas, te acolherei.  Quando o ar faltar, e a televisão não ligar. E se não me ligar. Acolherei. Seu corpo, seus membros  e os frutos do karma que oscilam nas pontas dos galhos, da sua poesia engavetada. E mesmo se a telepatia falhar, quando o elevador emperrar, nas suas escadas, na janela escancarada. Te acolherei. Errando a gramática. Destacando o pronome, rompendo as regras, que nem foram inventadas, nas horas vagas, repletas de nada. Quando o silencio gritar.  Ou nos minutos sem órbita, quando você tranca a porta, te acolherei.

Leave a reply


*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>